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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

SERVO DEVEDOR

INTRODUÇÃO
“Assim, pois, irmãos, somos devedores.” (Romanos 8.12)
Como criaturas de Deus, todos somos devedores a Ele. Devemos-Lhe obediência de toda nossa alma e de todas as nossas forças. Tendo desobedecido os mandamentos dele, conforme todos o fazemos, somos devedores à sua justiça. Devemos a Deus muito mais do que somos capazes de pagar. Porém, o crente nada deve à justiça de Deus, porque Cristo pagou a dívida que seu povo tinha para com ela. Por essa razão, o crente deve amá-Lo cada vez mais. Sou devedor à graça de Deus e à misericórdia perdoadora, mas não sou devedor à justiça dele, visto que Ele nunca me acusará de uma dívida que já foi paga. Cristo disse: “Está consumado!” (João 19.30). Por meio destas palavras, Ele estava afirmando que toda a dívida de seu povo foi removida do seu livro de recordação. Cristo satisfez completamente a justiça de Deus. A conta está liquidada. O escrito de dívida foi pregado na cruz, o recibo foi dado, e não somos mais devedores à justiça de Deus. Mas, assim, por não devermos mais à justiça de nosso Senhor, nos tornamos dez vezes mais devedores do que nos tornaríamos em quaisquer outras circunstâncias.
Crente, pense por um momento. Quão devedor você é para com a soberania de Deus! E muito mais você deve ao amor de Deus! Ele deu o seu próprio Filho, a fim de que morresse por você. Considere o quanto você deve à graça perdoadora de Deus. Mesmo depois de tantas afrontas, Ele o ama tão infinitamente quanto antes. Considere o que você deve ao poder de Deus. Ele o resgatou da morte e do pecado e preserva sua vida espiritual. Considere o quanto Ele já lhe preservou de cair; e como você tem conseguido prosseguir em seu caminho, mesmo tendo milhares de inimigos lhe cercando. Pense sobre o quando você deve à imutabilidade dele. Embora você tenha mudado tantas vezes, Ele nunca mudou. Você está tão profundamente em débito com cada atributo de Deus quanto poderia estar. A Deus você deve tudo o que é e possui. Entregue a si mesmo como “sacrifício vivo”; isso nada mais é que o seu “culto racional” (Romanos 12.1).

Fonte: http://voltemosaoevangelho.com/blog/2016/02/3-de-fevereiro-devocional-diario-charles-spurgeon/

CONCLUSÃO

Colocado dessa forma, concordo plenamente.

Temos uma impagável dívida de gratidão. 

Porém, não devemos nada à justiça de Deus, pois "havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo" (Colossenses 2:14 -15).

Não é falta de humildade da minha parte afirmar que não devemos nada, é o mero reconhecimento que alguém desceu da glória, se fez carne e pagou essa dívida impossível de ser paga por nós (Salmo 49:8).

Sou eternamente grato e me rendo a Ele, o autor e consumador da minha fé.

Não devemos nada a homem algum, mas tudo a Jesus, ao nosso Pai Eterno, criador do Universo e ao Seu Santo Espírito.

Porque dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas (Romanos 11:36).

Amém.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

AS LEIS DE NOÉ



Introdução

As Sete Leis de Noé (do hebraico: שבע מצוות בני נח "Šbaˤ mişwōt bnē-Noḥ" (Sheva Mitzvot B'nai Noah)), também chamadas de Brit Noah ("Pacto de Noah") são os mandamentos que de acordo com o judaísmo foram dados a Noé após o Dilúvio como regras para toda a humanidade. 

Assim, enquanto os judeus estariam obrigados a submeter-se a todas as 613 leis da Torá cujo resumo são os 10 mandamentos, os não-judeus seriam obrigados a seguir apenas as Sete Leis de Noé. O cumpridor destes mandamentos é chamado Ben Noah. 

A observância e guarda do Sábado não está incluída nas Sete Leis de Noé, já que este mandamento foi dado exclusivamente aos filhos de Israel segundo a carne.

Como se sabe, é possível se converter ao judaísmo, uma conversão nada fácil, que incluir, dentre outros requisitos o conhecimento da Torah e a circuncisão. Porém, para os judeus, os gentios estão obrigados a seguir as sete leis provenientes do pacto de Deus com Noé.


As Sete Leis de Noah são:

1. Avodah zarah - Não cometer idolatria.
2. Shefichat damim - Não assassinar.
3. Gezel - Não roubar.
4. Gilui arayot - Não cometer imoralidades sexuais.
5. Birkat Hashem - Não blasfemar.
6. Ever min ha-chai - Não maltratar aos animais.
7. Dinim - Estabelecer sistemas e leis de honestidade e justiça.

Abaixo uma breve síntese dessas leis, extraídas das sagradas escrituras. Ressalte-se que para os cristãos as sete leis de Noé estão inseridas nas proibições e mandamentos do Senhor Jesus, todos proferidos no Novo Testamento.

Com exceção do primeiro e (parte) do quarto mandamentos, qualquer estado laico de maioria cristã as contém em sua constituição e/ou leis inferiores. 

Bom seria que cumprissem todas. Registro, por opinião própria, que quando uma nação se afasta de qualquer uma dessas leis sofrerá detrimento. No nosso país, por exemplo, a descarada propaganda homossexual, incentivada e subsidiada pelo (des)governo Dilma, ainda produzirá muitos males. 

Claro, o roubo e a intolerância com outros sistemas políticos, bem como a descarada imoralidade de alguns líderes e autoridades desse governo, produzem um ambiente pródigo em determinar a derrocada das instituições e do estado brasileiro.


Não cometer idolatria

Nenhuma idolatria
Reconhecer e orar apenas a D'us
Oferecer sacrifícios apenas a D'us

Proibição contra o assassinato

Não matar
Não cometer suicídio
Não sacrificar crianças
De acordo com a interpretação de Maimônides, não cometer aborto

Proibição contra roubo

Não furtar
Não sequestrar pessoas

Proibição contra a imoralidade sexual

Não adulterar
Não cometer incesto com parentes próximos
Não cometer ato homossexual masculino.
Não cometer bestialidade
Não cruzar raças diferentes de animais
Não castrar animais

Proibição contra blasfêmia

Aceitar a singularidade de D'us
Não blasfemar
Não praticar feitiçaria
Não praticar artes divinatórias
Não praticar conjurações
Não praticar demonolatria
Não praticar necromancia
Honrar pai e mãe

Proibição contra o maltrato de animais

Não comer um membro de um animal (enquanto ele ainda está vivo


Estabelecer tribunais de justiça

Estabelecer tribunais e sistemas de justiça
Não dar falso testemunho nem fazer falsos juramentos

fontes: wikipedia, bíblia, ensinos rabínicos outros.

conclusão


Ninguém pode dizer que o Brasil, através do governo do PT, não está frontalmente contra a maioria dos princípios bíblicos, em particular os mencionados acima. São tantos descalabros e desatinos que daria um livro.

Um país idólatra, apesar do avanço do cristianismo reformado, uma país onde a feitiçaria é amplamente aceita, a imoralidade sexual campeia nas redes televisivas, em especial nas novelas que fazem apologia do adultério e do homossexualismo, um país em que o governo quer interferir na educação das crianças incluindo a ideologia de gênero nas escolas primárias, um país que não incentiva a educação, mas importa médicos ateus e comunistas, um país que tolera o roubo e a corrupção, um país de justiça questionável e, por fim, e não menos doloroso, um governo que apoia terroristas islâmicos contra Israel.

Está difícil, não podemos afirmar que o Senhor está a nosso favor diante dessas constatações, a maior possibilidade é que esteja contra o nosso governo no momento e nós estamos sofrendo as consequências dos descalabros governamentais.


Um ótimo ano novo, mas se não for pior que 2015 já estará bom demais.

Tem misericórdia de nós, oh Senhor!

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O SERVO-ARBÍTRIO

Erasmo, Lutero e o Livre-arbítrio


Extraído de estudo de Samuel Cunha


Resumo

Erasmo e Lutero são os principais representantes de dois grandes movimentos situados na transição da idade média para a modernidade europeia: o Humanismo Renascentista e a Reforma Protestante. Inicialmente havia certa proximidade entre Erasmo e Lutero, pois ambos almejavam uma reforma da Igreja na Europa, mas o livre-arbítrio vai ser um ponto de ruptura entre os dois.

O artigo pretende basicamente analisar a tensão entre o livre--arbítrio (Erasmo) e o servo-arbítrio (Lutero) e suas implicações para a pastoral de hoje.

INTRODUÇÃO

O período da idade média foi caracterizado por tensões políticas e sociais, catástrofes climáticas, obstáculos na agricultura, doenças não diagnosticáveis, sendo a principal delas a peste negra, que foi uma das maiores catástrofes que atingiu a Europa, pois se estima que tenha morrido um terço da população europeia. Parecia que o juízo final nunca antes foi tão iminente, as pessoas estavam com medo da morte e assombradas com as crises na época. Diante disto, um lugar para remediar as ansiedades era a Igreja, porém ela passava por corrupção moral, econômica e religiosa.

Este ambiente de extrema ansiedade e de busca pela reestruturação de valores contribuiu para a ressignificação da prática religiosa e para o surgimento de dois grandes movimentos da idade média europeia:

o Humanismo Renascentista e a Reforma Protestante. Dentre os principais pensadores destes respectivos movimentos, elegemos Erasmo de Roterdã (1466/1469-1536) e Martinho Lutero (1483-1546).

Havia certa proximidade entre Erasmo e Lutero, ao ponto de provocar suspeita de que Erasmo estivesse apoiando o movimento de Lutero, isso possivelmente surgiu a partir da tradução do Novo Testamento realizado por Erasmo. Ambos almejavam uma reforma da Igreja, mas o livre-arbítrio vai ser um ponto de ruptura entre os dois.

Primeiro Erasmo, em setembro de 1524, na feira de Frankfurt, realiza a publicação de De Libero Arbitrio (FEBVRE, 2012, p. 280). Depois chega a vez de Lutero. Em dezembro de 1525, ele publicou sua resposta aos argumentos de Erasmo, em sua obra De Servo Arbítrio (FEBVRE, 2012, p. 280).

Portanto, este artigo pretende responder às seguintes perguntas:
a) Qual é a ideia central de Erasmo sobre o livre-arbítrio? b) Qual é a ideia central de Lutero sobre o livre-arbítrio? c) Quais são as diferenças  Erasmo, Lutero e o Livre-arbítrio entre Erasmo e Lutero na compreensão do livre-arbítrio? E para concluir avaliaremos, d) A tensão entre o livre-arbítrio e o servo-arbítrio e suas implicações para a pastoral de hoje.


IDEIA CENTRAL DE ERASMO SOBRE O LIVRE- ARBÍTRIO

Apesar de Erasmo ter um plano diferente para reformar a Igreja, em especial o receio por tumulto e uma ruptura violenta, o humanismo renascentista certamente influenciou o avanço da Reforma Protestante.

A publicação, em 1516, do Novo Testamento grego, tradução latina com base no original e independente da Vulgata (FEBVRE, 2012, p.149), sem dúvida foi fundamental para a exegese dos reformadores, que podiam comparar as características da Igreja do Novo Testamento com a decadente realidade da Igreja de seu tempo.

Anteriormente, em 1504, Erasmo havia publicado o Manual do Soldado Cristão, que representava uma impiedosa crítica, dentre outras, às autoridades eclesiásticas e à decadente religiosidade de sua época.

Nesta obra estavam delineadas as principais críticas que os reformadores fariam à Igreja. “Com cautela, como era de seu feitio, mas com determinação, Erasmo ali conduzia uma operação bastante hábil. Dava cobertura a Lutero com sua autoridade e também com sua moderação” (FEBVRE, 2012, p. 152).

Havia certa proximidade entre Erasmo e Lutero, ao ponto de provocar a suspeita de que o filósofo estivesse apoiando o movimento da Reforma Protestante, um intenso preconceito sobre essa relação que resiste até hoje: “Lutero? Filho espiritual e êmulo de Erasmo – o realizador de suas veleidades reformadoras” (FEBVRE, 2012, p. 154).

Para interromper essa relação foi-lhe proposto que seria necessário escrever um texto contra Lutero, dando origem a obra De Libero Arbitrio (BAINTON, 1969[?], p. 221 apud MILLI, 2008, p. 42).

A obra de Erasmo pode ser segmentada em três partes principais. A primeira delas discute algumas questões preliminares acerca da importância do tema e os pressupostos metodológicos envolvidos em seu estudo. A seguir, o estudo investiga dois tipos de passagens bíblicas: as que sustentam o livre-arbítrio e as que parecem se opor a ele. 

Finalmente, são analisados os argumentos utilizados por Lutero para negar o livre-arbítrio. Basicamente Erasmo opunha-se à compreensão antropológica de Lutero em suas Asserções, apesar de que ela apareça também em outros de seus escritos anteriores a 1524 (MILLI, 2008, p. 6). Não é seguro afirmar que a verdadeira posição teológica de Erasmo sobre o tema do livre-arbítrio era aquela descrita em sua obra De Libero Arbitrio. É provável que o escrito pretendesse mais defender sua imagem, acusada de ser luteranizante, do que trazer uma opinião teológica final (DREHER, 1993, p. 15 apud. LUTERO, 1993, p. 15).

Considerando que Lutero afirmava utilizar apenas as Escrituras como base de suas ideias, Erasmo revela que elas retratam o livre--arbítrio de maneira ambígua, embora admita a existência de passagens que parecem negá-lo, outras passagens o sustentam. Neste caso, propõe uma analise dos pensamentos dos pais da Igreja que, em sua esmagadora maioria, apoiam o livre-arbítrio. Erasmo também alerta sobre o perigo que o tema traz para a população cristã, em especial para as mentes indolentes e maliciosas, quando afirmada a não existência do livre-arbítrio, pois isto poderia levar à omissão de responsabilidades morais e éticas.

Para Erasmo, a passagem bíblica principal que sustenta o livre--arbítrio seria Eclesiastes 15.14-17, em sua interpretação, o homem nasce com uma razão pura, porém a vontade é livre para escolher entre o bem e o mal. Após o pecado original, a graça divina ajuda o esforço humano para agir corretamente, ou seja, não é apenas a graça divida, e não é apenas o esforço humano, mas a união de ambos. Ele compreende que se o homem não pode decidir entre o bem e o mal, não é possível culpá-lo por seus pecados. Ora, se a vontade não é livre, o pecado deixaria de ser pecado pela sua involuntariedade (ERASMUS, 1969, p. 50).

Erasmo também explica passagens que parecem opor-se ao livre--arbítrio. A maioria delas emana de Romanos 9, onde Paulo discorre sobre tal tema. O endurecimento do coração de Faraó é explicado pelas suas más ações, tornando cada vez mais distante do arrependimento.

A eleição de Jacó e a rejeição de Esaú é baseada na presciência de Deus. Existem grandes implicações quando se estabelece uma visão unilateral: se o homem tudo faz, não há espaço para a graça. Mas se ele não faz nada, não existe lugar para os méritos, que proporcionam as recompensas ou punições. Assim, a aparente contradição de passagens que ora afirmam a vontade humana, ora a vontade divina, pode ser harmonizada através da junção do empenho da vontade do homem com a assistência da graça.

Erasmo acompanha o raciocínio de alguns pais ortodoxos que distinguiam três estágios da ação humana: o pensamento, a vontade e a realização. Apenas na segunda fase é que o livre-arbítrio age, mas com a força da graça. Logo, visto que o labor humano nada alcança, exceto quando a graça também está presente, toda obra é atribuída à beneficência divina. Mas isso não significa que o homem não faça nada, nem anula a cooperação humana com a graça (ERASMUS, 1969, p. 80).

Portanto, Erasmo definia livre-arbítrio como “força da vontade humana pela qual o ser humano pode aplicar-se às coisas que levam à salvação eterna ou delas afastar-se” (ERASMUS, 1969, p. 47). Nesta definição encontramos uma valorização das ações humanas, porém em todo o texto ocorrem destaques à graça de Deus. Neste sentido, a ideia central de Erasmo sobre o livre-arbítrio é a harmonia entre o esforço humano e a graça divina, uma não anula a outra. Para Erasmo o homem pode interferir em sua salvação, ele pode decidir entre o bem e o mal, pode crer ou não crer, e quando crê, Deus o acompanha com sua graça.


IDEIA CENTRAL DE LUTERO SOBRE O LIVRE-ARBÍTRIO

Ao contrário de Erasmo, o ambiente de Lutero era o mosteiro, num contexto camponês do interior. Como teólogo, suas atenções se voltavam para os assuntos ligados à salvação humana, à justiça divina, e não a reforma da Igreja. Os medos e angústias expressos por Lutero, principalmente quando ainda era monge, coincidem com os sentimentos da população da época, pois ele próprio sentia-se abandonado, sentia que os males da sociedade eram decorrência dos próprios pecados da humanidade.

A Igreja procurou minimizar a ansiedade do povo através da proposição de inúmeras práticas que livrariam as pessoas do inferno. Em consenso com a noção econômico-capitalista que despontava, este sistema meritório colocava o destino futuro nas mãos do próprio indivíduo.

Dessa forma, o povo era chamado a agradar a Deus, agindo da melhor forma possível. Tal empenho seria premiado pela graça divina, que capacitaria as pessoas para ações ainda melhores. Em suma, era um método baseado na recompensa e troca.

Já não bastasse o peso individual da responsabilidade da salvação por meio das práticas de obras meritórias, imperava a lei “tente fazer um pouco melhor”, dando o efeito de um ciclo sem fim, produzindo no povo um insaciável apetite religioso que buscava incessantemente a obtenção de méritos, o que certamente contribuía para o sucesso financeiro da venda de indulgências (MILLI, 2008, p. 10-11).

Costuma-se fixar o marco inicial da Reforma Protestante no dia 31 de outubro de 1517, quando Lutero tornou públicas as suas 95 teses sobre a venda de indulgências (FEBVRE, 2012, p. 107). Contudo, em nenhum momento, Lutero teve a intenção de fundar uma nova Igreja, apesar disso, o rompimento foi inevitável como resultado da sucessão de acontecimentos e do vigor da experiência religiosa de Lutero que não podia ser contida nos moldes desgastados da religião estabelecida.

Lutero inquietava-se constantemente com a presença do pecado em sua vida e com a possibilidade de salvação. É esta postura que o fez voltar-se inicialmente contra a venda de indulgências e a possibilidade de compra da salvação. É a partir desta ideia que trilhará um caminho que o levará diretamente à ruptura com a Igreja Católica.

Lutero organiza sua teologia através do estudo da Bíblia, em especial a antropologia paulina, mediada pela teologia agostiniana.

A noção de justiça alcançada pela fé levou Lutero a virar “a piedade medieval de cabeça para baixo. Ele passou a ver que a salvação não é o objetivo da vida, mas sim seu fundamento” (LINDBERG, 2001, p. 86 apud MILLI, 2008, p. 9). A partir desta linha de pensamento, as preocupações humanas a respeito da salvação não seriam suavizadas com os méritos, mas apenas pela crença na graça divina, sem levar em conta as obras realizadas. Essa teologia, sem dúvida, foi um método revolucionário para um contexto onde um sistema meritório imperava.

A anulação da liberdade humana era premissa básica do novo conceito teológico de Lutero, visto que para Lutero ela impede a absoluta liberdade de decisão e poder da vontade divina: a “onipotência e presciência de Deus abolem completamente o dogma do livre-arbítrio” (LUTERO, 1993, p. 137).

Neste sentido, se houver livre-arbítrio não há graça, e se houver graça, não há livre-arbítrio, um obrigatoriamente anularia o outro. Não é possível o homem realizar qualquer obra para se salvar, pois tem a natureza decaída, ele não tem livre-arbítrio, mas é cativo, sujeito e servo ou da vontade de Deus ou da vontade de Satanás.

O livro escrito por Lutero, De Servo Arbitrio, foi uma resposta no ano seguinte ao lançamento do livro de Erasmo. O método usado por Lutero foi praticamente analisar e responder linha por linha do livro de Erasmo. A Bíblia não pode ter divergências, segundo Lutero, pois sua fonte é o Espírito Santo. A vontade humana não tem poder algum para salvação, apenas a graça e a palavra de Deus é que tem este poder, pois acreditava na depravação total da humanidade. A certeza da escravidão humana no que se refere à livre vontade era tamanha, que Lutero usa a figura de um jumento para representar o servo-arbítrio: este quer e anda de acordo com a vontade de seu montador, seja Deus ou Satanás. Entretanto, “não está em seu arbítrio correr para um dos dois cavaleiros ou procurá-lo; antes, os próprios cavaleiros lutam para o obter e possuir” (LUTERO, 1993, p. 49). Assim, em termos de salvação ou condenação, o homem não possui livre--arbítrio, mas sua vontade é cativa.

O tom perceptível nos argumentos de Lutero é de irritação e decepção, por exemplo, ao tratar da definição de livre-arbítrio dada por Erasmo. Lutero analisa a frase, afirmando que a definição não faz sentido. Ainda assim afirma que independentemente do que Erasmo quis dizer com sua afirmação de “poder da vontade humana de se aplicar às coisas que levam à salvação eterna”, as únicas coisas que podem levar à salvação eterna são as ações de Deus e Sua palavra, nada tendo nenhuma relação com qualquer vontade humana. Outra critica irônica de Lutero foi dizer que se Erasmo achava que esse tema não deveria ser discutido, então porque ele escreveu o livro De Libero Arbitrio (LUTERO, 1993, p. 36). Lutero também fala da “astúcia” de Erasmo por não assumir uma posição sobre o assunto, que ao falar sobre o livre-arbítrio, exaltou mais a graça de Deus do que a vontade humana (LUTERO, 1993, p. 27).

Lutero responde os argumentos de Erasmo sobre textos bíblicos que aparentam sustentar o livre-arbítrio, e conclui que o fato de haver passagens com leis que devem ser feitas pelo homem, não garante a capacidade humana de realizar o que a lei determina, pelo contrário, a função da lei é provar a incapacidade humana de cumpri-la, levando o homem para a graça de Deus. Sobre o caso do endurecimento do Faraó quanto a suas ações, Lutero acusa Erasmo de não respeitar a simplicidade das palavras da Escritura e buscar adaptações através de analogias e deduções.

Portanto, a ideia central de Lutero quanto ao livre-arbítrio está fundamentada na tese de que o homem não tem capacidade de colaborar com a sua salvação, apenas a graça e a palavra de Deus. O livre-arbítrio não é entendido como uma faculdade da vontade para se determinar, mas é um termo exclusivo de ações que levam à salvação e, neste caso, como Lutero parte do Pressuposto da depravação total do ser humano, não é possível esse realizar qualquer obra para se salvar, isso é ação única de Deus por meio de sua misericórdia. Em suma, a vontade humana no escopo salvação, é escrava, nunca livre.


DIFERENÇAS ENTRE ERASMO E LUTERO NO QUE TANGE AO LIVRE-ARBÍTRIO

Erasmo e Lutero discordam em diversos aspectos relacionados ao tema livre-arbítrio. Para Erasmo a Bíblia pode ser ambígua sem alguns assuntos, mas Lutero irá contestar “Admito, por certo, que nas Escrituras há muitas passagens obscuras e abstrusas, não por causa da majestade dos assuntos, mas por causa da ignorância em matéria de vocábulo e gramática” (LUTERO, 1993, p. 24). Quanto a pais da Igreja, Erasmo cita Jerônimo, e Lutero Agostinho. O critério de verdade de cada um é diferente. Lutero reconhece apenas a autoridade da Bíblia, enquanto Erasmo aponta, além dela, para a autoridade da tradição interpretativa da Igreja. Tradicionalismo e Biblicismo irão se confrontar.

Erasmo prefere ser moderado quando há risco de tumulto e tem um compromisso com a ordem na Igreja, isso o levará a defender que certos tópicos não convêm expor ao público. Lutero destaca textos que considera duros e que estão presentes nas Escrituras, argumentando que “Deus quis que tais coisas fossem ditas publicamente e divulgadas, sem considerar o que se seguiria” (LUTERO, 1993, p. 44). Sobre o tumulto que a palavra possa criar, Lutero alega que a Bíblia contém diversas passagens/protestos que geraram tumultos (LUTERO, 1993, p. 39), exemplo: Jesus – “Não vim trazer a paz, mas a espada” (Lc 12.49); Paulo – “Em sedições” (2 Co 6.5); O tumulto em Atos dos Apóstolos; Elias e Acabe (1 Rs 18.17). Lutero parece apaixonado por sua fé, ao ponto de não medir as consequências que sua nova teologia possa gerar, assim irá acusar Erasmo de dar maior valor a certa paz e tranquilidade carnal do que à verdade, “mesmo que o mundo todo não só tivesse que ser envolto em conflito e tumulto, mas também ruísse num só caos e fosse reduzido ao nada” (LUTERO, 1993, p. 38).

Sobre o tema Presciência, Erasmo faz distinção entre predestinação e uma presciência, que não constrange nossa vontade. Ele compreendia que a vontade divina possui duas formas, a primeira é uma vontade profunda, é imutável e eterna, regendo todo o universo, a segunda, é a vontade significante, proporcional aos nossos atos e à nossa consciência (ARAUJO, 2004, p. 69). Já para Lutero, a presciência está no alicerce de sua teologia e do seu atual debate, “este é o ponto capital da nossa disputa” (LUTERO, 1993, p. 29), para ele, tudo o que acontece com o homem é fruto da irresistível Soberania de Deus, pois Deus não só conhece, como também faz e controla tudo e todos. A síntese da sua fé sobre presciência diz “é necessário e salutar que o cristão saiba também que Deus de nada tem presciência de modo contingente; antes Ele prevê, se propõe e faz tudo com vontade imutável, eterna e infalível. Com este raio o livre-arbítrio é totalmente derrubado e destruído” (LUTERO, 1993, p. 30).

Como podemos deduzir em suas afirmações, Lutero crê em uma presciência fatalista, uma força que predispõem os acontecimentos, inclusive a salvação.

Erasmo compreendia que a vontade humana era livre para seguir o caminho do mal ou do bem, podendo inclusive influenciar na sua salvação. Desta forma, o homem não é totalmente depravado, pois sua razão com ajuda de Deus ainda pode realizar ações virtuosas. Sobre a depravação humana, Lutero entendia que o ser humano nasce e vive totalmente no pecado, não há capacidade alguma para realizar qualquer ação que agrade a Deus, todas as suas obras são más por necessidade.

Somos totalmente controlados, nunca livres, independentemente se a ação for má ou boa, isso é o que diz quando trata do assunto endurecimento de coração: “Deus opera o mal em nós, isto é, por meio de nós, não por culpa de Deus, mas por causa de um vício nosso, pois somos  maus por natureza, e Deus, ao contrário, é bom” (LUTERO, 1993, p. 129).

Em suma, Erasmo tem uma visão positiva sobre a humanidade, já Lutero uma visão negativa. O humanista não pode aceitar, racionalmente, que Deus possa punir alguém que não é livre para escolher, simplesmente não faz sentido. Se as Escrituras estão cheias de passagens que prometem recompensas e criam um sistema de méritos, daí segue-se, logicamente, que para ter direito a uma recompensa é necessário merecê-la. Não é possível que Deus tenha “enganado” a santa Igreja e os santos Pais por tanto tempo.

Lutero responde com sua fé e experiência pessoal, “nenhum ser humano crerá e nem poderá crer, os eleitos, porém, crerão” (LUTERO, 1993, p.46). Quanto à recompensa, Lutero diz “recompensa é promessa e não se prova que sejamos capazes de algo, apenas indica se houver feito isto ou aquilo, então há de ter recompensa” (LUTERO, 1993, p. 109).
Deus jamais enganou sua Igreja, a questão é quem é a Igreja de Deus, que segundo Lutero, é invisível e não uma instituição. “Não há artigo de fé, por mais confirmado que seja pelo Evangelho, de que um Erasmo, quero dizer, a Razão, não saiba zombar” (FEBVRE, 2012, p. 279). Essa foi uma frase dita por Lutero e que se encontra na coletânea de Cordatus. Razão e fé, talvez este seja o maior conflito teológico que haja entre Erasmo (razão) e Lutero (fé). Ambos desejam encontrar argumentos para aquilo que lhe apraz.

O humanista não consegue ir contra sua lógica racional, e o protestante não suporta o risco de voltar a ter o peso do pecado e o terror da condenação eterna. O livre-arbítrio parece ser a opção mais lógica, racional e natural, e esse é um dos motivos que faz Erasmo defendê-lo. Mas se consultarmos a razão, já não vamos crer em mistério algum, exclama Lutero.

Havia discórdia na compreensão da ambiguidade Bíblica, no critério de verdade, no receio com o tumulto ou ruptura com a Igreja, na interpretação da presciência e predestinação e na depravação do ser humano. Mas o que objetivavam provar seria a existência ou não do livre-arbítrio, se as pessoas têm ou não capacidade de influenciar na sua salvação, se o ser humano é capaz de realizar ações virtuosas sem o controle de Deus, enfim, se há liberdade da vontade ou se ela é sempre serva. Erasmo vai responder com uma interpretação racional das passagens Bíblicas, Lutero responde com sua fé embasada em  uma releitura das Escrituras Sagradas, em especial aplicando em suas interpretações a teologia Paulina de eleição.

Portanto, Erasmo aplica a razão como critério absoluto da verdade e Lutero aplica a fé a serviço do amor. A razão e a fé formaram um conflito inevitável motivado por interesses próprios de cada combatente.

O humanista interessado na difusão e o progresso da sua filosofia de Cristo, e o protestante lutando contra os exageros e opressões políticas, sociais e econômicas realizadas pela Igreja do século XVI. A diferença entre Erasmo e Lutero na compreensão do livre-arbítrio está fundamentada nos objetivos de cada um: protesto moderado e sem ação para publicar sua racional verdade (Erasmo) ou um protesto apaixonado, a serviço do amor aos pobres e explorados da época (Lutero).


A TENSÃO ENTRE O LIVRE-ARBÍTRIO E O SERVO-ARBÍTRIO E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A IGREJA HOJE

A experiência da tensão teológica entre o livre-arbítrio e o servo-arbítrio no século XVI tem muito a ensinar para o cristianismo contemporâneo. Principalmente nas atitudes da Igreja quanto aos recursos financeiros, injustiça social e a opressão política. A Igreja católica, naquela época, tinha atitudes corruptas quanto a recursos financeiros e exploração social. 

A venda de indulgências reflete bem a situação, de modo prático, havia uma comercialização do perdão de pecados, ou a compra da salvação de um falecido. Isso significava que o dinheiro podia comprar a salvação eterna.

Para Lutero, esse conceito está absurdamente distante das Escrituras e de Cristo, isso o fará protestar apaixonadamente contra o dogma das indulgências. Erasmo também não concordava com muita coisa, mas seu estilo de protesto será mais teórico do que prático.

Apesar de Erasmo fazer duras criticas a religiosidade da época, especialmente na sua obra Manual do Soldado Cristão, seus esforços não obtiveram resultados satisfatórios. Erasmo “via-se trabalhando em uma reforma religiosa empreendida por dentro, e não por fora. 

Decerto não pretendia oferecer um remédio contra os abusos externos e formais de uma igreja” (FEBVRE, 2012, p. 144). O humanista conhecia profundamente o que era a Igreja romana: a infiltração política nos dogmas os interesses econômicos, a venda de indulgências, seus infinitos recursos materiais obtidos de forma enganosa e a estrutura eclesiástica precária. Ainda assim, a ruptura e um protesto mais agressivo contra a Igreja não fazia parte dos métodos de reforma planejados por Erasmo, seu protesto foi tímido e complacente.

Lutero falou de Jesus a partir das vítimas com uma teologia de libertação dos oprimidos. Suas reinvindicações não se limitavam apenas em questões doutrinárias, mas também em abusos eclesiásticos que refletiam no aumento da pobreza e do sofrimento humano. Estava denunciando a tarefa do inimigo do Cristo, que é contra uma presença do Reino de Deus que busca uma sociedade mais justa e protetora dos pobres. A partir dos conceitos da teologia escolástica, a Igreja romana abusava do conceito de méritos para salvação. De maneira que até o mérito podia ser adquirido por dinheiro. A favor do amor e contra a exploração religiosa, Lutero vai afirmar: nada realiza o homem para se salvar, não há livre-arbítrio. Ora, se a salvação não depende de obras, mas apenas da graça de Deus, então a “indulgência financeira” não faz sentido.

Essa critica põe em risco a comercialização de indulgências, e quando envolve o deus dos grandes e políticos (Mamom1), eles se levantam para contra-atacar.

Erasmo apoia a razão como critério absoluto da verdade e Lutero defende a fé a serviço do amor. É difícil mensurar em qual ponto cada personagem está correto ou errado sobre o tema do livre-arbítrio, mas se formos avaliar as motivações, métodos e efeitos, Lutero teve maior sucesso que Erasmo. As motivações do humanista estão baseadas na sua razão a favor da defesa de sua imagem e da Igreja. Uma das motivações de Lutero é o protesto contra a opressão que a Igreja aplicava sobre a população, em especial, os mais pobres. 

Os métodos de Erasmo são temerosos, pois existe certo compromisso com seus verdadeiros senhores, a saber, os grandes e os políticos (FEBVRE, 2012, p. 146).

O método de Lutero é denunciar com fervor e coragem os abusos dos grandes que acumulam para si fortunas e riquezas sem fim a partir de uma exploração dos pequenos.1 Cf. Lc 16.13;

A principal tarefa da Igreja, junto com a pregação da Palavra, é denunciar a falsidade do senhorio da riqueza e do poder neste mundo, e em contrapartida, revelar o Senhorio de Deus que se revelou na vida de Jesus (SUNG, 2013). A partir desta linha de pensamento, Lutero é superior a Erasmo como representante de Jesus em uma antecipação dos sinais do Reino de Deus.

Erasmo defende uma teologia de liberdade da vontade, mas não abandona o lado dos opressores. Lutero defende a servidão da vontade, mas apoia uma Igreja de ações totalmente livres.

Na pastoral contemporânea temos observado atitudes no cristianismo que são muito similares às da Igreja do século XVI. Dentre alguns movimentos destaco a teologia da prosperidade. O Kerigma Bíblico é contrario ao sistema econômico capitalista e seus efeitos para a sociedade. Mas isso não tem impedido o crescimento do conceito de Igreja com uma gestão empresarial, onde o objetivo é o lucro. Para isso tem-se aplicado estratégias de gestão para obter riquezas: consumo, mídia, marketing, ostentação, ideia de concorrência, etc. Neste sentido, o cristianismo está caminhando para o sentido oposto da misericórdia e da igualdade. Para hoje, a tensão do livre-arbítrio nos alerta: denuncie a falsidade do senhorio da riqueza e revele a Jesus para uma sociedade mais justa.


CONCLUSÕES - CVPFB

Parece-nos que o autor, Paulo Cunha,  equivoca-se quanto à oposição total entre fé e razão. Lutero jamais disse que a razão se opõe à fé, mas, como Agostinho, que a razão deve ser serva da fé.

O outro ponto do qual discordamos é a conclusão, equivocada a meu ver, que o kerigma bíblico opõe-se ao sistema capitalista. Um erro absurdo.  A ascensão da burguesia, o avanço científico e a queda do sistema feudal encontravam na igreja romana o mais forte obstáculo.

Todavia, a explanação acerca do livre-arbítrio e suas origens, bem como do servo-arbítrio luterano é perfeita, excelente.

Na doutrina católica tradicional, o comércio, a acumulação de dinheiro, os empréstimos a juros, a busca do lucro eram associados ao pecado e sempre colocados sob suspeita. A igreja romana estava identificada com a sociedade feudal, na qual a forma de riqueza preponderante, de forma quase absoluta, era a terra. A classe dominante no sistema feudal era hereditária, a autoridade e a nobreza eram hereditárias, dadas por Deus.  A sociedade capitalista que nascia, promovendo o surgimento e a ascensão da burguesia, tinha na igreja católica um obstáculo ao seu desenvolvimento. A Reforma significou, nesse aspecto, a elaboração de doutrinas religiosas que, sem deixarem de ser cristãs, estavam mais adequadas às atividades e aos interesses da ciência e da  burguesia, sempre impedidas pelo catolicismo romano.

Nesse sentido, interessante conhecer a ética protestante e o "espírito" do capitalismo (no original em alemão Die protestantische Ethik und der 'Geist' des Kapitalismus), uma obra produzida por por Max Weber (1864-1920), considerado um dos fundadores do pensamento sociológico. Trata-se do seu livro mais lido e mais conhecido. Nesse livro, Weber investiga a influência do pensamento protestante na nova ordem econômica, terminando por concluir que o protestantismo foi a base ideológica religiosa do capitalismo.

Agora, a nobreza não advém mais da hereditariedade sanguínea, mas sim da filiação a Deus através de Jesus Cristo, isto é, o novo nascimento. O trabalho não é mais um mal, como pensava a igreja romana, mas passa a ser uma bênção de Deus. Também passam a ser uma bênção a prosperidade e a riqueza, pois isso vem do Senhor. Se é certo que os renascentistas escolheram como método a dúvida, optaram pela lógica racional, não menos exato que a reforma protestante anulou por completo a ideologia romana da autoridade secular vinda de Deus, estabeleceu as bases para a responsabilidade individual diante de Deus, pois a salvação é individual, carece de um relacionamento individual entre Deus e o homem, sem intermediários. Assim, se a responsabilidade é individual, o homem é responsável por seus atos, não precisa de intermediários, de bispos ou reis que o proteja ou perdoe, pois sua proteção e seu perdão vem diretamente de Deus.

Não há nada melhor do que isso para um sistema econômico baseado na livre iniciativa. Inobstante, um sistema religiosos baseado na depravação total do ser humano, no fato do ser humano ser potencialmente mal, e não bom, vai justificar diversas considerações acerca da política, como a separação de poderes, a alternância no poder, a carta de leis justamente para limitar o poder de império, elementos necessários porque o homem não é confiável. Portanto, a democracia é um regime que somente pode sobreviver no cristianismo. Tanto que nenhuma outra doutrina religiosa permitiu os avanços que o cristianismo trouxe no campo político. o islamismo produziu ditaduras, o espiritualismo idem. Somente o cristianismo pode produzir um sistema político em que os governantes estão debaixo do império da lei, não podendo ainda se perpetuarem no poder.

A responsabilidade individual pela salvação, uma religião conduzida pelo próprio homem, responsável pelos seus atos diante de Deus, uma religião em que o trabalho dignifica o homem, que a instrução tem lugar de honra, e que a nobreza vem da filiação a Deus e não da herança hereditária, fundou as bases para o desenvolvimento científico, dos regimes democráticos de governo e de um sistema econômico em que o trabalho e a criatividade não poderiam mais ser tolhidos. Se quiser prosperar, tem de estudar e trabalhar, é o oposto do ideal católico, contra o trabalho, a riqueza, a ciência e a prosperidade.

Evidentemente, excessos e exageros no capitalismo evangélico, como crer em Cristo apenas para essa vida, como prega a teologia da prosperidade e muitas outras práticas, como o dinheiro pelo dinheiro, o servir a Mamom, devem apenas ser considerados como desvios doutrinários a serem corrigidos, nada mais.

O sistema capitalista deve ser controlado, isso porque a natureza humana é má (depravação total, pecado original), daí a necessidade do controle exercido por instituições democráticas e da alternância no poder, que preservem os ideais da liberdade, igualdade e fraternidade. Todos esses controles institucionais que existem nos regimes democráticos tem fundo cristão. Precisa haver controle e fiscalização porque a natureza humana é má e precisa ser controlada e, em alguns casos, punida.

Mas é muito melhor do que o sistema comunista, que prega o paraíso na terra e a conquista desse paraíso pela violência e a morte dos inimigos do comunismo. Note-se que nos regimes ditatoriais, comunistas, islâmicos, espiritualistas, falar em alternância no poder, direitos iguais para todos e controle institucional não passa de heresia.

Retornando ao ponto, parece-me que Lutero, com a sua doutrina do servo-arbítrio, de fato produziu uma doutrina em que a salvação é obra exclusivamente de Deus. Não restou ao homem qualquer liberdade de escolha. Deus dirige seus passos para a salvação sem a necessidade da cooperação humana.

Isso é contrário ao que afirma Arminius, que produziu uma sofisticação da doutrina humanista de Erasmo de Roterdã.

De certa forma, nós somos herdeiros do humanismo de Erasmo, nossa lógica é a lógica renascentista, isso está na base da nossa educação nas escolas. Entender que não somos nós que escolhemos ser salvos, que aceitamos Jesus, mas que é Ele quem nos amou primeiro, quem nos escolheu, nos chamou, parece estar acima de nossa capacidade. Inobstante, não ousemos dizer que a ideologia católica de antanho não continua a nos influenciar, seria ingenuidade.

Por essa razão, urge nos aprofundar na doutrina do servo-arbítrio. Como afirmou Lutero: Deixemos Deus ser Deus! Confiemos nEle, ainda que não conheçamos, ou consigamos explicar, as coisas ocultas que Deus guardou para Si e não nos revelou.

Não ousemos, por outro lado, afirmar que porque Deus nos salvou podemos tudo, tudo é permitido e é proibido proibir. A licenciosidade, libertinagem e a desobediência a princípios bíblicos neotestamentários constituem sinal claro de ausência de conversão e novo nascimento.

Pelos frutos se conhece a árvore, quem produz maus frutos não é de Deus, não é nascido de novo.


Referências

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 DISCERNINDO - Revista Teológica Discente da Metodista v.2, n.2, p. 53-66, jan. dez. 2014 Samuel Cunha

DISCERNINDO - Revista Teológica Discente da Metodista

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Die protestantische Ethik und der 'Geist' des Kapitalismus), Max Weber (1864-1920)